Esse texto eu escrevi há quase três anos atrás... e continua atual. Em três anos continuo com os mesmos hábitos, a mesma casa... até a ortografia já mudou e eu não! Algo tem que mudar com urgência!
Toda a minha vida eu fui, e continuo sendo, o que se chama de "pack rat". Algo que poderia ser traduzido como alguém com um complexo de esquilo. Eu guardo tudo. Todos os papeizinhos, todos os comprovantes, todas as cópias que não foram usadas, tudo o que um dia foi interessante por seja lá que motivo, tudo o que deu na veneta de alguém me dar, por mais insignificante que fosse. A tudo eu atribuo um valor, que na maioria das vezes é mais alto do que na realidade. Pelo medo de perder algo especial, eu abaixo o valor de tudo pelo excesso de oferta e o que é realmente especial tende a ficar perdido no meio da tralha.
Tudo isso por quê? Eu sei que é um hábito de família, mas acho tem algo mais por trás disso. Eu tenho muito medo de esquecer das coisas. Em algum momento da vida, eu percebi (ou me convenci de que) a minha memória não é lá essa maravilha. Eu nunca cheguei a uma conclusão se é a memória que não é boa ou se é um simples déficit de atenção, mas minhas observações tendem à memória ruim. Mesmo estudando sobre assuntos que me interessam muito, eu esqueço de detalhes, e às vezes de dados cruciais, apesar de sempre saber onde encontrar a informação desejada. É como se eu precisasse da existência da referência material para realmente saber algo sobre qualquer coisa. Inclusive sobre mim mesma. Se a informação estiver apenas na minha mente, ela deixará de existir.
O problema é que, enquanto eu me defino por todas essas coisas que mantêm a minha memória de quem eu sou, eu também me identifico com essa maçaroca toda. E isso aqui tá uma bagunça homérica, física e mental. É um peso ter que manter, classificar, rotular e guardar todo esse lixo. Cansei.
Quase qualquer coisa pode ser útil em um futuro hipotético. A dúvida é saber o que é útil agora. Para mim ou para mais alguém. Se eu tenho algo que é útil para alguém agora e para mim apenas num futuro hipotético, francamente, quem deveria estar de posse de tal objeto? E algo que não é útil para mais ninguém, guardar para quê?
O arrependimento sempre me assustou muito. Jogar algo fora é um ato sem volta. E por me identificar com tudo o que me cerca, a preservação tomou uma importância muito maior do que deveria.
Mas hoje eu me pergunto se eu preciso mesmo lembrar de tudo isso que reserva sua existência material no meio do meu espaço. O que eu quero primordialmente, viver ou lembrar? Recentemente conheci um cara que é o oposto de mim, vive praticamente só do momento, é a coisa mais clean do universo. O jeito que ele leva a vida não é o estilo que eu procuro para mim, mas o contraste me chamou a atenção para as possibilidades. A leveza de viver o momento me atrai. E não há necessidade de seguir extremos.
Como tudo na vida é um processo mais ou menos consciente, na verdade a limpeza já começou. Tenho um quarto vazio dentro de casa que não me deixa mentir. Mas por algum motivo eu parei, o impulso inicial se perdeu. Eu esvaziei o quarto, mas não concretizei meus planos para ele. Existem empecilhos para isso, principalmente financeiros, mas estou longe de ter feito tudo o que posso no momento. O que travou?
O quarto que eu esvaziei sempre foi um quarto de bagunça, um verdadeiro depósito de lixo. É fácil se livrar de algo assim. Mas e o resto da casa, que está praticamente igual aos dias de casada, com a exceção da ausência de um computador? Medo de perder uma identidade que não existe mais? Na dúvida, ou mesmo na certeza, vou mexer em mais algumas coisas por aqui. Quem sabe a retirada de mais um pouco de entulho não melhora a minha perspectiva do todo?